sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A difícil saída de Cabrobó...


Sair de Cabrobó está sendo tão difícil quanto chegar até a cidade... se na entrada as dificuldades foram as corredeiras e as pedras, agora é o transporte que impede minha progressão... pensei em ir direto a Paulo Afonso para ganhar alguns dias e ter mais tempo para visitar essa importante cidade do rio São Francisco, pois meus prazos agora são rígidos e com quase nenhuma margem de segurança: minha passagem de volta para casa já está marcada, a partir de Aracaju, para o dia 15 de dezembro!


Pois ontem fiquei quatro horas de pé em um posto de gasolina, à beira da estrada, esperando encontrar algum veículo que pudesse transportar minha canoa, minhas tralhas e eu... mas foi em vão! Não passou um só veículo com destino a Paulo Afonso! Voltei para a pensão cansado e sem perspectivas de retorno... ao final do dia surgiu algo que parecia a solução de meus problemas: uma van me levaria hoje, às seis horas, para meu destino! Finalmente eu conseguiria dar prosseguimento à viagem e ainda ganhar uns dois dias em minha programação.


Hoje acordei cedo e preparei tudo antes do sol nascer; mas houve um novo adiamento, e o carro só passaria às 8:00 horas... paciência! Tomei café da manhã e coloquei toda a bagagem na varanda, exceto a canoa, que ficou no posto de gasolina. Oito horas... oito e trinha... nove horas... o tempo passava e nada da van chegar! Liguei para o Emilson e ele dise que eu não me preocupasse, pois o carro já estava abastecido e logo me pegaria na pensão.



Nove e trinta... dez horas... liguei para o Paulo Teógenes e pedi sua ajuda... ele prometeu falar com o Emilson... dez e trinta... onze horas... nada do carro. Resolvi vir para a lan house para diminuir minha ansiedade e aqui estou. Será que saio hoje? Teria sido melhor seguir pelo rio e enfrentar a barragem de Itaparica! O rio corre sozinho, já diziam os índios! Mesmo devagar, eu já estaria perto da barragem e logo chegaria a Petrolândia! Paciência... é disso que tenho vivido todos esses meses dedicados ao meu projeto, à Natureza e ao rio São Francisco... embora sem nenhum patrocínio, chegarei ao meu destino, que é o mar...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

TRUKÁS: as tribos da Ilha Assunção

Segundo conta a história, os Trukás foram expulsos de suas terras há muitos anos, e transformados em escravos pelos colonizadores, com o apoio e colaboração da igreja católica. Em 1979, quase um século depois da aboliçãodos escravos, esse povo retomou a luta pelas suas terras, o que foi conseguido em 2002.

Hoje eles habitam a Ilha de Assunção e mais 72 ilhas em seu redor, e trabalham a terra com modernas técnicas de agricultura e pecuária e diversificada produção. São auto-suficientes, possuem várias escolas, onde as aulas são ministradas por professores Trukas, e ainda preservam algumas tradições, como a cerimônia do Toré.

Sua população é de mais de cinco mil indivíduos e as terras foram distribuídas igualmente entre seus moradores. Hoje a relação com a terra respeita a capacidade produtiva e a habilidade de gerar riqueza de seus moradores, como ocorre em todas as sociedades. Vivem em paz e em harmonia com a Natureza, que preservam com responsabilidade.

Fui apresentado à tribo dos Trukás pelo Ednaldo Ciliro, descendente de um dos responsáveis pela sua emancipação. Ednaldo é daquelas pessoas que não se pode deixar de conhecer: alegre, inteligente, completamente integrado em seu mundo e, mesmo assim, circula com espontaneidade no mundo "paralelo", descendente daqueles que, um dia, os humilharam e subjugaram. Mesmo assim, não guarda rancores e vive bem. Ele afirma que hoje não existe mais animosidade entre os habitantes de Cabrobó e as aldeias indígenas dos Trukas, nas ilhas do arquipélago de Assunção.

Ao final da minha visita ganhei dois livros editados pelos Trukas, relatando sua história, e com a dedicatória dos professores Trukás. Prometi voltar e me hospedar com eles quando meu livro tiver sido publicado. Ednaldo retribuiu dizendo que terei a honra de assistir a uma cerimônia Toré!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Monte Carmelo: vista do rio sob o cruzeiro


Pôr do sol em Orocó


Árvore em bifurcação do rio, próxima a Cabrobó


Cabrobó - o berço da transposição

Ruínas de uma igreja construída em 1617. As pedras foram apenas encaixadas!

Minha chegada a Cabrobó não poderia ter sido mais complicada! Remei durante 8 horas, desde Orocó, contra um vento fote e muita "mareta"! É cansativo e improdutivo enfrentar o vento, mas não tinha alternativa; precisava chegar a Cabrobó, final da penúltima parte de minha expedição!

O trajeto é ponteado de ilhas, ilhotas, pedras e corredeiras, de muita beleza, mas exigindo atenção redobrada e muito cuidado para não bater nos inúmeros "stonebergs" do rio! Essas pedras imensas às vezes ficam totalmente submersas, muito próximas da superfície da água, prontas para virar qualquer embarcação que apenas resvale o casco em sua borda.


Perto de Orocó já havia passado por uma situação difícil: um trecho acidentado, com poucas alternativas, exigindo decisões rápidas, muito reflexo e, especialmente, SORTE! Entrei na corredeira com determinação e logo percebi que a encrenca era maior do que pensava!

De um lado, as pedras se avolumaram rentes ao casco de minha canoa; o ritmo rápido do rio não dava margens para indecisões; joguei o barco de lado e puxei de volta novamente, conseguindo evitar o impacto! De outro lado, as ondas se formavam perigosamente paralelas à embarcação: se elas chegassem dessa maneira, não haveria como manter o barco na água; com o remo fiz um pivô lateral, girando a canoa sobre seu eixo; consegui colocá-la de frente para as ondas, mas o impacto foi forte e muita água entrou de uma só vez.

Voltei a girar o barco e puxei o remo com força, seguidamente, antes que outra onda me atingisse; consegui, finalmente, sair da zona de formação de ondas e parti para a segunda bateria de corredeiras; tinha que mudar para a outra margem, onde pareciam estar os obstáculos mais fáceis. Remava intensamente, quase no limite de minhas forças, pois não poderia errar: o barco já tinha muita água e qualquer erro seria fatal.

Enfim, consegui superar esses obstáculos... parei em um trecho recoberto de aguapés e esvaziei a canoa lentamente. Bebi água, retomei o fôlego e segui adiante. Não imaginei que, depois de Monte Carmelo, houvesse outro trecho complicado assim.

Quando chegava a Cabrobó percebi que havia outro obstáculo, agora intransponível: o rio fazia uma curva em "S" em torno de uma enorme pedra, sobre a qual várias pessoas se divertiam. Mal tive tempo de jogar o barco sobre a margem, em um matagal. Saltei para o barranco e examinei, de longe, a corredeira: sem nenhuma possibilidade de êxito! Não dava para passar.


Com muito esforço remei de volta, rio acima, até uma bifurcação; girei o barco e me joguei "no escuro", fazendo uma curva fechada à esquerda; a canoa passou direto sob uma árvore muito baixa e me arranhei com seus espinhos, mas consegui passar. A alegria, porém, durou alguns segundos: à minha frente, outra árvore despencada sobre o rio, já morta!

Bati de frente e o bico da proa se alojou embaixo de um galho! A água entrava rapidamente no barco; não tive tempo de pensar: firmei o pé no tronco  e joguei meu corpo para trás, puxando o barco. Na terceira tentativa ele cedeu e saiu de baixo da árvore. Eu me virei e amarrei a popa em uma forquilha, imobilizando o casco. Tentei descolar o barco da árvore, mas cada movimento fazia a canoa girarde lado, entrando mais água. Estava preso!

Tirei a água lentamente, com uma esponja, pois a caneca que eu tinha deve ter caído na água. Com o barco estável, escalei o tronco e pulei para o barranco. Subi rapidamente e gritei por ajuda, mas ninguém respondeu. Temia que o barco virasse e eu perdesse todas as minhas anotações, fotografias, filmagens, tudo o que representava meu trabalho até então. Desisti...

Liguei para Paulo Teógenes, secretário de Finanças de Cabrobó que, prontamente, se dispôs a me ajudar. Pediu algums informações: eu estava a 1,84 km da cidade, pelo meu GPS, estava em um canal do rio (eles chamam de rio pequeno;o rio grande passa por fora da ilha de Assunção) e ouvia sons de animais (cães, galinhas e cabras). Era tudo o que eu soube informar. Alguns minutos depois ele chegava, com mais dois secretários de governo que, com a ajuda de dois índios Trukás, me ajudaram a transportar as sacolas que eu levava no barco para o barranco, em sucessivas escaladas da árvore caída. Aos poucos, tudo se resolvia...

Passei, por fim, a canoa, e seguimos para a cidade. Depois eles me disseram que, por aquele caminho, não seria possível eu chegar: havia outra corredeira, logo abaixo, igual ou pior do que aquela que eu avistara. Levaram-me para a pensão de dona Júlia, uma simpática velhinha, mãe de dona Socorro. Era uma pensão simples e agradável.


À noite jantamos juntos e conheci outros membros do governo municipal, inclusive o prefeito, Eudes Caldas. Comemos um bode assado (que, na verdade, era um carneiro), muito apreciado pelo presidente Lula, em sua visita a Cabrobó. Fui dormir cedo, pois estava cansado.

Paulo Teógenes tem sido um grande amigo, essencial para minha permanência bem sucedida nesta cidade: viabiliza tudo com a maior facilidade e está sempre disponível para me ajudar no que for preciso. Sem sua ajuda, minha passagem por Cabrobó talvez nem tivesse sido percebida pela população, como aconteceu em tantas outras cidades...


Cabrobóé uma cidade de 35 mil habitantes, muito agradável, com estilo de vida de cidade de praia, bares e cadeiras nas calçadas, todo mundo se conhecendo e se relacionando com simpatia e em paz. Essa imagem verdadeira é muito diferente daquela transmitida pela imprensa: há muito tempo Cabrobó não conhece a violência e se tornou uma cidade progressista e moderna, com bons restaurantes, padarias e um comércio ativo e forte.


Ontem foi um dia especial para mim: fui entrevistado em duas rádios: a Comunidade, rádio local, e a Grande Rio, que atinge cerca de 23 municípios,inclusive Petrolina. Depois fiz palestras em três escolas públicas.

Hoje visitei as obras da transposição: gigantesca e impressionante! Mais de 8 mil trabalhadores, uma imensidão de canais que levarão as águas para outras bacias, perenizando rios e prometendo melhorar as condições de vida dos sertanejos nordestinos... agora visitarei a comunidade de índios Trukás, na ilha de Assunção. Amanhã sigo para Paulo Afonso. Isso encerra essa etapa e estarei a 250 km da foz...

sábado, 21 de novembro de 2009

Santa Maria da Boa Vista




Monte Carmelo: formações de corredeiras
Cheguei a Santa Maria dia 20 de novembro, às 14:30 horas... uma praia que mais parece à beira-mar, com pessoas amáveis me perguntando de onde eu vinha com minha pequena canoa... já me senti bem à chegada, mas muito haveria de se contar dessa cidade hospitaleira!


Uma cidade para não se esquecer jamais!
Adelmir, assessor do Prefeito Leandro Duarte, foi me buscar na praia. Almocei um tucunaré feito "no capricho" e tomei água de côco... já me sentia na praia de Boa Viagem! Fomos para a Pousada Maruada e me refiz da curta e cansativa jornada desde Curaçá. Muito vento e marolas ("maretas") dificultaram minha progressão nos últimos três dias...

Ainda na praia fui recepcionado pelo Prefeito Leandro Duarte e muitos amigos, de forma carinhosa e generosa como apenas o povo nordestino sabe nos receber... lembrei-me dos idos de 1986 a 90, quando moramos em Recife, nas inúmeras amizades que lá deixamos, e nos anos inesquecíveis que marcaram para sempre nossas vidas...

Hoje visitamos um lugar chamado Monte Carmelo, uma parede rochosa que se projeta sobre o Velho Chico de forma imponente e bela. No alto, um cruzeiro e um pequeno santuário, onde se realizam romarias. A vista é impressionante! O rio tece suas curvas caprichosamente, envolvendo as escarpas, caudaloso e ramificado em dezenas de ilhas, ornamentadas com rica vegetação! No leito do rio, corredeiras e redemoinhos ("cachoeiras" e "panelas", como se diz por aqui) embelezam ainda mais a natureza selvagem desse rio magnífico!

Ao longo do caminho, pela estrada que corta a caatinga, diversos povoados sobrevivem à rudeza do clima, sem perder a alegria, manifestada em várias casas simples de espetáculos, muitos bares e um povo hospitaleiro e amável. Quem convive com eles se apaixona!

Amanhã seguirei minha jornada e enfrentarei essas corredeiras, em direção a Cabrobó, onde conhecerei a tribo dos Trukás e visitarei as obras da transposição, procurando entender seus motivos e expectativas de mitigar a sede de tantos habitantes que se espalham pelas caatingas e dependem do velho carro-pipa para poder sobreviver.

É a fase final de minha expedição, que me levará depois a Belém de São Francisco, Paulo Afonso e demais cidades da divisa de Alagoas e Sergipe, rumo ao mar e à minha casa!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina!


Há cerca de 20 anos eu passava por Petrolina e Juazeiro, a caminho de Senhor do Bonfim e Campo Formoso, vindo de Recife, onde morava. Era uma viagem de trabalho e passei rapidamente por essas cidades, pois tínhamos pouco tempo para realizar um levantamento de informações em uma empresa de mineração e cimento, de Alexandre Maranhão. Eram cidades simples e pacatas, típicas do interior nordestino, e o que me chamou a atenção foi a ponte e o rio que as separava. Mal sabia que esse rio, o meu Velho Chico, se tornaria íntimo de minha vida e dono de meu destino! Isso foi há muitos anos...

Passei ao largo da represa de Sobradinho, desde Passagem e Pilão Arcado, direto para Petrolina. A travessia de Xique-Xique para Passagem foi feita de barco e cheguei à noite no pequeno porto; dormi no próprio barco devido ao adiantado da hora. Pela manhã conversei com alguns moradores e logo percebi que seria difícil conseguir transporte para Remanso. Ao contrário de Xique-Xique, Passagem tem muito pouco movimento de barcos e nenhum transporte regular para qualquer outra cidade do lago de Sobradinho.

Segui para Pilão Arcado em um pequeno caminhão e logo saí em busca de transporte. Também lá a situação era difícil; poucos veículos faziam entregas, a maioria carros frigoríficos, e nenhum se dispunha a levar minha canoa até Remanso. O preço de transporte em uma caminhonete era absurdo: cento e cinquenta reais! Desse jeito não chegaria ao final de minha viagem!

Depois de algumas horas sentado no meio-fio, minha canoa no meio da rua, passou uma carreta que eu vira despejando sacos de cimento logo atrás. Dei sinal, meio desconsolado, e o motorista, sr. Régis, parou. Expliquei a ele minhas dificuldades, mas ele se mostrava desconfiado e indeciso. "Quem seria esse maluco?", teria pensado. Tomei uma decisão e perguntei: "por quanto o sr. me leva até Patrolina?". Ele, pego de surpresa, replicou: "quanto o sr. me daria?". E logo fiz uma proposta definitiva: "cento e cinquenta reais"; foi o que me veio à cabeça, dado o preço das caminhonetes até Remanso... ele aceitou!

Chegamos a Petrolina às nove da noite, depois de passarmos por Remanso e Casa Nova. A estrada é péssima e a carreta vazia chacoalhava muito, fazendo um barulho metálico desagradável e  constante... minha canoa era jogada para todo canto da carroceria, perdida naquela imensidão vazia... No caminho ele ainda deu carona a três pessoas e logo percebi que paguei caro demais... mas o problema de transporte foi resolvido e era o que me interessava naquele momento. Paramos para almoçar em Remanso, onde tomei um banho e troquei de roupa. No caminho liguei para Avelar Amador, diretor do Clube Náutico de Petrolina, que me oferecera estadia e apoio logístico, através do chat de meu blog...

Avelar se encontrou comigo na cidade e descarregamos a canoa e minhas tralhas no clube. Seguimos à procura de um hotel e fiquei muito bem instalado no Portal do Rio, bem no centro da cidade. O hotel serve um excelente café da manhã e tem telefone, TV e ar condicionado no quarto. Muito mais do que estou acostumado nos últimos meses! Só estranhei mesmo a água quente... prefiro gelada!

Avelar tem sido um grande amigo: levou-me ao clube e me apresentou a seus amigos, fomos passear de veleiro com um amigo em comum de Recife, o Paulo Moura, ex-colega do Pague-Menos; hoje fomos ao museu de Ana das Carrancas, artista plástica falecida em 2008, e que produziu obras belíssimas em barro, e à Casa do Artesão, onde conheci "Rock" Santeiro, um artista que esculpe, em madeira, peças magníficas!

Ainda dei uma entrevista à Gazzeta de Petrolina, graças aos contatos de sábado no Clube Náutico. A reportagem deverá sair na edição de amanhã, dia que reservei para visitar Sobradinho, a cidade e a represa. Lá tenho outra indicação de Avelar, o engenheiro Marcelo, que me mostrará a usina hidrelétrica.

Na quarta-feira sigo minha viagem, agora recuperado de parte de meus atrasos... e levo comigo as recordações de um grande companheiro, Avelar Amador, que me deu todo esse apoio apenas por acreditar em meu trabalho e compartilhar de minhas intenções preservacionistas! Obrigado, meu amigo!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Xique-Xique: 1.700 km percorridos!


Cheguei a Xique-Xique ontem, no iníco da noite. Foi bem complicado, pois parei em um lugar ermo, estranho e já escurecia... tentei meus contatos aqui e em Juazeiro, mas não conseguimos nenhum apoio. Resolvi retornar até um canal por onde passavam barcos  grandes e que eu vira na chegada. Dei sinal para alguns, mas ninguém parava; parecia até que não me viam! Segui adiante e vi luzes em um casarão que me pareceu um hotel.


Quado subia o barranco, duas pessoas me recomendaram a não parar ali, pois o risco de assalto era grande. Disseram-me que logo adiante haveria um porto com muitos barcos e eu poderia pedir auxílio. E foi isso que aconteceu: parei ao lado de um barco e pedi para pernoitar ali mesmo. Um senhor idoso e seus dois filhos me acolheram e me tranquilizei.


Conversando com esse velho pescador, ele contou uma lenda (no qual ele acredita!), dizendo que o Surubim, quando envelhece, se torna um monstro: crescem cabelos sob as guelras e pelo corpo todo, e ele se transforma em um ser perverso e comedor de gente! Contou até a história de um conhecido deles, que foi devorado por um surubim; quando conseguiram tirá-lo das garras desse animal, já era tarde...


Lendas à parte, o fato é que consegui ficar em segurança, embora não tenha dormido mais do que alguns minutos; chegou um grupo de pessoas no barco ao lado e conversaram durante horas. Quando paravam, chegou outro barco, parou ao lado, e desembarcaram umas dez pessoas, além de muita carga. Depois passaram todo o pescado para os tanques e cobriram de gelo. Quando fecharam as cortinas para dormir, eu já tinha perdido o sono. Para piorar, senti frio na magrugada...


Saí de Barra às oito da manhã, depois de uma despedida emocionante de irmã Irene, que me abençoou e me deu vários presentes, e de Dra. Maria Eloá, que também me presenteou com frutas e lembranças. Nunca me esquecerei dessa passagem por Barra do rio Grande, uma cidade histórica e repleta de histórias!


Lá conheci a professora Joana Camandaroba, uma senhora de 95 anos, muito lúcida e que começou sua carreira de escritora aos 80 anos! Já publicou quatro livros e prepara seu quinto volume. Tem uma memória privilegiada e me recebeu em sua casa para um chá e uma entrevista deliciosa! Ela possui um museu de peças raríssimas, que vai de uma coleção de pratarias e peças de todo o mundo, que amealhou em suas viagens, até o solidéu (pequeno boné sem aba) que ganhou do papa Pio XII, em Roma. Ela me deu um de seus livros, com uma extensa dedicatória! Depois ganhei outro livro dela, "O último canto do cisne" da sra. Helena, proprietária do Espaço Cultura, uma livraria interessante no centro da cidade.


Em Barra fiquei hospedado no Palácio Episcopal a convite de Frei Luiz Cappio, o Bispo da Diocese. Dom Cappio é uma personalidade carismática, calmo e sereno, discípulo de Leonardo Boff, o autor de Teoria da Libertação e membro da Igreja Progressista que surgiu na década de 60 e 70, durante e depois do Concílio Vaticano II. No Brasil ficaram conhecidos os bispos Dom Pedro Casaldaglia, de Félix do Araguaia, Dom Evaristo Arns, de São Paulo e Dom Hélder Câmara, de Olinda e Recife.


Frei Luiz, como carinhosamente o chamam as pessoas das comunidades pobres do Sâo Francisco, é um verdadeiro Franciscano, austero e humilde, como o Santo, engajado na luta pela defesa do rio e de sua população mais carente, e posuidor de uma fala brilhante e contundente, contrário à obra faraônica da transposição, e em defesa de um projeto de Revitalização, não só do Rio Sâo Francisco, mas de toda a população que dele depende para sobreviver. Isso inclui uma verdadeira Reforma Agrária e a revisão dos mega-projetos desenvolvimentistas que mais contribuem para a morte do rio.


Tive o privilégio de conviver alguns dias com todas essas pessoas e recebi um presente inesquecível de Frei Luiz: um depoimento gravado,  que em breve colocarei neste blog para deleite de todos vocês. Frei Luiz também foi generoso comigo: ligou para minha mãe e lhe deu sua bênção, repleta de palavras bondosas e amorosas para a pessoa a quem mais quero bem nessa vida!


Agora sigo meu caminho em direção à foz: quinta-feira chegarei em Pilão Arcado, onde pegarei nova carona para Remanso e Sento Sé, até chegar a Sobradinho, para transpor a barragem e chegar a Juazeiro e Petrolina. De lá só faltarão 700 km até o mar, e ainda terei uma portagem de 180 km para superar Paulo Afonso e Xingó. Estou no fim de minha jornada e me sinto muito bem com isso!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Barra: o encerramento de uma grande etapa!


Cheguei a Barra ontem, dia 02 de novembro, pleno finados!

Desde Paratinga, duas experiências muito importantes: as visitas aos quilombos de Boa Vista do Pixaim e de Torrinha! Pessoas muito especiais vivem nessas comunidades... pessoas oprimidas pelo nosso sistema social e econômico, extremamente elitista e excludente, que ignora o fundamento da vida humana: a sua dignidade!

Mesmo depois das ameaças sofridas decidi visitar essas comunidades, pois minha viagem só passou a ter sentido em função delas, que me enriquecem profundamente e me tornam um ser mais humano e solidário. Eles sim, são heróis, mártires vivos de uma opressão tremenda de nosso sistema político e social!

É difícil conceber uma população que vive há duzentos, trezentos anos em uma terra, descendentes diretos de escravos foragidos de seus algozes, e ainda assim, sendo ameaçados de expulsão pelos fazendeiros que os cercam e impedem que tenham uma vida digna. Muitos desses fazendeiros nem conhecem esses verdadeiros moradores; muitos mal sabem de suas próprias terras, herdadas pela ilegalidade de nosso poder estabelecido, griladas ou invadidas, até mesmo em áreas pertencentes à União, às margens do Velho Chico!

Mas a verdade se restabelecerá, um dia, e fará justiça a esses homens e mulheres, velhos e crianças esquecidos neste mundo imenso dos sertões Bahianos, e receberão suas terras, e cultivarão seus próprios alimentso, assim como aprenderam de seus antepassados, em lameiros, sem agrotóxicos, naturalmente...

Em Boa Vsita do Pixaim fui recebido por Alex e sua família, e hospedado como se um parente fosse, com toda a atenção e carinho de um velho amigo, que assim já me sinto. Falei para a comunidade, relatei meus pensamentos, convidei-os a refletir sobre a devastação que se abate sobre o rio São Francisco, a defender seu legado e lutar para que seus filhos - nossos filhos - tenham um mundo do qual se orgulhem!

Ainda há muito para se fazer nessas terras: drenar os baixios que se alagam a cada chuva, cultivar o milho a abóbora, a mandioca, o tomate, a melancia... cuidar da criação de porcos, galinhas e cabras, investir na reconstrução de suas casas de taipa, trazer a cultura para seus lares, enfim, inclui-los no mundo atual!

Saí de Boa Vista do Pixaim fortalecido pelo convívio e pela solidariedade recebida e prestada a eles, com minhas energias recuperadas e determinado a seguir até o final de minha jornada.

Passei por Torrinha por acaso... estava na outra margem do rio quando avistei uma enorme montanha de rochas e, em seu pé, ruínas de construções antigas, que me chamaram a atenção e me levaram a atravessar o rio e saber o que era aquilo. Era Torrinha, uma comunidade quilombola com cerca de 70 famílias, em um local magnífico, de grandes possibilidades turísticas e potencial de desenvolvimento econômico rápido.

Na margem, Juarez, o líder da comunidade me esperava há três dias! Fiquei impressionado! Almoçamos juntos e já partimos para uma visita inusitada: passamos pelas ruas da comunidade e pude fotografar as pessoas, as construções, os arruamentos... nada ficou esquecido! Juarez até me indicava os melhores ângulos, as melhores fotos; pedia aos moradores para colaborar... enfim, fiz o que precisava.

Descemos à margem do rio, onde duas enormes mangueiras centenárias abrigavam a maioria dos moradores. Fiz uma palestra emocionado e impelido pela vontade de falar a todos sobre o projeto, as agressões à natureza, os descaminhos do homem nas terras de Deus! Falei por mais de uma hora, a tarde avançando em meu relógio, mas nem sentia necessidade de prosseguir viagem.

Enfim, às 5 horas, saí, abraçado ao povo, compartilhando as mesmas emoções, irmanados pelo mesmo sentimento de união e de revolta pelas injustiças que se abatem sobre esse povo indefeso.

Naveguei por mais umas duas horas e acampei em uma bela praia. Foi uma noite inesquecível, de lembranças recentes e de intensas ambições futuras. Preciso realizar meu projeto e denunciar esses abusos!

Amanhã conhecerei Frei Luiz Cappio e será uma nova e intensa emoção em meu percurso...

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Depoimento de Manoel Bibiano, prefeito de Iguatama, MG

Charge na "Gazzeta do São Francisco"

Charge na "Gazzeta do São Francisco"
Despedida de Nêgo Dágua e a Carranca - Juazeiro, BA

Depoimento de Roberto Rocha, Lagoa da Prata, MG

Localidades Ribeirinhas

Vargem Bonita / MG

Ibotirama / BA

Hidrelétrica de Três Marias / MG

Morpará / BA

Pirapora / MG

Barra / BA

Ibiaí / MG

Xique-Xique / BA

Cachoeira do Manteiga / MG

Remanso / BA

Ponto Chique / MG

Santo Sé / BA

São Romão / MG

Sobradinho / BA

São Francisco / MG

Juazeiro / BA

Pedras de Maria da Cruz / MG

Petrolina / PE

Januária / MG

Cabrobó / PE

Itacarambi / MG

Hidrelétrica de Itaparica - PE / BA

Matias Cardoso / MG

Hidrelétrica de Paulo Afonso / BA

Manga / MG

Canindé de São Francisco / SE

Malhada / BA

Hidrelétrica de Xingó - AL / SE

Carinhanha / BA

Propriá / SE

Bom Jesus da Lapa / BA

Penedo / AL

Paratinga / BA

Piaçabuçu / AL

Depoimento de Dom Frei Luiz Cappio, Bispo de Barra, BA

Principais Afluentes

Rio Abaeté

Rio Pandeira

Rio Borrachudo

Rio Pará

Rio Carinhanha

Rio Paracatu

Rio Corrente

Rio Paramirim

Rio das Velhas

Rio Paraopeba

Rio Grande

Rio Pardo

Rio Indaiá

Rio São Pedro

Rio Jacaré

Rio Urucuia

Rio Pajeú

Rio Verde Grande

Entrevista à TV Sergipe, Aracaju

Postagens mais populares